Paulo já expôs (2:28s.) que o verdadeiro judeu é o homem cuja vida exalta a Deus; que a linhagem natural e a circuncisão física não são as coisas de maior importância. Agora, com igual gênio demonstra que nem todos os descendentes de Israel são israelitas quanto ao ser interior, que nem todos os descendentes de Abraão são “filhos de Abraão” no sentido espiritual por ele explicado no capítulo 4. No transcorrer de toda a his­tória do Velho Testamento, o propósito de Deus foi conduzido por meio de um grupo íntimo, uma minoria eleita, um remanescente reservado. Abraão foi pai de um bom número de filhos, mas somente por meio de um deles, Isaque, o filho da promessa, é que a linha da promessa de Deus devia ser traçada. Isaque, por sua vez, teve dois filhos, mas somente por um deles, Jacó, é que a semente santa foi transmitida. E a escolha que Deus fez de Jacó e a omissão do seu irmão Esaú não dependeram nem um pouco da conduta ou do caráter dos irmãos gêmeos: Deus o declarara previamente — antes do nascimento deles.

Assim hoje, deduz Paulo, quando uns recebem luz e outros não, pode-se discernir a eleição divina como operando antecedentemente à vontade ou à atividade dos que são seus objetos. Se Deus não revela os princípios segundo os quais Ele faz Sua escolha, isto não é razão para pôr em dúvida a Sua justiça. Ele ê misericordioso e compassivo porque Sua vontade o é. “A qualidade da misericórdia não é imposta à força”, muito menos quando é Deus que mostra misericórdia. Pois se fosse compelido por alguma cousa alheia a Ele, a ser misericordioso, não somente a Sua misericórdia deixaria de ser misericórdia, mas também Ele mesmo deixaria de ser Deus.

Nem é somente em Seus procedimentos para com “a semente es­colhida da raça de Israel” que este princípio funciona. Pode-se ver isto em Êxodo, no relato dos procedimentos de Deus para com o rei do Egito, que repetida e teimosamente negou-se a deixar Israel partir. Por que Deus suportou por tanto tempo a obstinação de Faraó? Deus mesmo dá a resposta: “Para este propósito te deixei viver, para mostrar-te meu poder, de modo que o meu nome seja anunciado em toda a terra” (Êx 9:16, RS-V). Mesmo toda a resistência e rebelião de alguém como Faraó jamais poderá impedir o propósito de Deus; a glória de Deus triunfará, quer o homem Lhe obedeça, quer não.

Bem, replicam, se Deus preordena os caminhos do homem por Sua própria vontade, por que deveria culpá-lo por andar por onde anda? Não se opõem à Sua vontade; agem de acordo com ela.

“Meu bom amigo”, responde Paulo, “Quem é você para contestar a Deus?” E emprega a analogia do oleiro e seus vasos, analogia que vinha tão prontamente aos profetas hebreu como veio a Ornar Khayyám. Je­remias aprendeu uma lição sobre os procedimentos de Deus para com o Seu povo no dia em que desceu à casa do oleiro e viu como o oleiro modelou o barro como bem lhe pareceu, ajeitando um vaso que se quebrara e se tornara um caco informe, fazendo dele um vaso outra vez (Jr 18:1-10).

“Ai daquele que contende com o seu Criador,

um vaso de barro com o oleiro!

Acaso dirá o barro ao que lhe dá forma:

‘Que fazes?’ ou:

‘A tua obra não tem alça’?”

(Is45:9, RSV.)

Admita-se que a analogia do oleiro e seus vasos cobre apenas um as­pecto da relação do Criador com aqueles que criou, principalmente com os homens, que Ele criou à Sua imagem. Os vasos não são feitos à imagem do oleiro e em caso algum podem contestar-lhe ou apontar defeitos no seu trabalho. Os homens, precisamente porque feitos à imagem de Deus, insistem em responder-lhe. Mas há diferentes modos de responder-lhe. Há a resposta da fé, como quando um Jo ou um Jeremias pede que Deus explique Seus misteriosos modos de tratá-lo. Mesmo Cris­to na cruz pôde clamar: “Por que me desamparaste?” Mas quando o homem de fé clama desse modo, é precisamente porque a justiça de Deus, bem como o Seu poder, é a principal premissa de todo o seu pen­samento. Há, por outro lado, a resposta da incredulidade e desobediên­cia, quando o homem tenta colocar Deus no banco dos réus e julgá-lo. É a esse tipo de gente que Paulo censura tão asperamente e recorda sua condição de criatura. Paulo tem sido mal compreendido e criticado injus­tamente por não entenderem que é ao rebelde que desafia a Deus — e não ao desnorteado que procura a Deus — que ele faz calar peremptoriamen-te. Deus, por Sua graça, tolera as questões levantadas por Seu povo; mas Ele não se submete ao interrogatório judicial feito por um coração em­pedernido e impenitente.

Suponhamos que Deus queira pôr de manifesto o Seu reto juízo e o Seu poder, diz o apóstolo. Por que não haveria de tolerar pacientemente gente como Faraó — vasos (para continuar a metáfora) feitos para ser­virem de lições objetivas de Sua ira, modelados para serem destruídos? E por que não haveria de demonstrar a grandeza da Sua glória por inter­médio de outros “vasos” que servem de lições objetivas de Sua misericór­dia, de antemão preparados para este glorioso propósito? Paulo, mais cauteloso do que alguns dos sistematizadores dos seus ensinos, não diz com todas as letras que Deus faz isso, mas diz: “E se o fizesse? Quem O traria a contas?”

Fonte: BRUCE, F.F. ROMANOS: Introdução e Comentário. 1ª Edição. Brasil: Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, 1979.

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