Pedro Zuazo

O cantor gospel Kleber Lucas, de 49 anos, vem sofrendo ataques nas redes sociais desde que participou de um evento no terreiro da mãe de santo Conceição d’Lissá, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no último dia 22. Na ocasião, representantes evangélicos e de religiões de matriz africana se uniram para celebrar a doação de R$ 11 mil pelo Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio (CONIC-Rio) para o barracão Kwe Cejá Gbé de Nação Djeje Mahin, que foi criminosamente incendiado em 2014. Em clima festivo, Kleber Lucas cantou ao som de atabaques. Mas o que era para ser uma manifestação contra a intolerância religiosa acabou terminando em polêmicas.

Nas redes sociais, ele deixou de ser chamado de “adorador” — expressão evangélica dispensada a cantores gospel — e passou a ser tratado por “endemoniado” por internautas. Com mais de 3,6 milhões de seguidores no Facebook e quase 500 mil no Instagram, o cantor diz que prefere não ler as mensagens negativas e defende uma discussão ampla sobre a intolerância. Kleber Lucas, que tem mais de duas décadas de carreira, 14 discos gravados e venceu o Grammy Latino em 2013 de melhor álbum de música cristã, afirma que já esperava essa repercussão.

 — Eu sabia o desafio que representava participar de um evento dessa natureza, em um terreiro. O espaço foi escolhido exatamente para ser um demarcador, para mostrar que somos contra a intolerância. Não fui lá para prestar um culto, mas para participar de um ato solidário. Quando a coisa foi para a mídia, tomou proporções muito grandes. Mas se você se propõe a ler essas coisas, você adoece. Não posso me propor a ler essas coisas aterradores, mas, para mim, é sintomático ver a reação negativa partindo de tantas pessoas — diz.

Não é a primeira polêmica em que Kleber Lucas se envolve. Atualmente casado com Danielle Favatto, ex-mulher de Romário, o pastor já foi alvo de críticas por ter se divorciado duas vezes. Em março deste ano, o pastor, que é fundador da Igreja Batista Soul, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade, foi criticado por por cantar a música “Epitáfio”, dos Titãs, durante um culto. No mês seguinte, por ocasião do aniversário de três anos do templo, causou furor no meio evangélico ao convidar o Padre Fabio de Melo para participar das festividades.

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— Foi um caldeirão de hostilidade. As pessoas questionavam como um pastor evangélico podia levar um padre para falar na igreja dele. Foi maravilhoso. O acolhimento do padre foi tal que quebramos o protocolo que tínhamos programado. Em determinado momento ele sairia da programação, mas gostou tanto que acabou ficando até o final. Ele nos respeitou e foi respeitado por todos — diz Kleber Lucas.

Nascido em São Gonçalo, na Região Oceânica do estado, Kleber Lucas acostumou-se cedo a manifestações racistas. Mas a maior delas aconteceu em 1997, quando estava em Goiás, e partiu justamente no ambiente evangélico. Na ocasião, Kleber ouviu de um pastor: “você é um preto safado, seu lugar é na favela”.

— Não me ofendeu tanto porque, a essa altura, eu já sabia quem eu era e qual era o meu lugar. Então, pelo contrário, aquilo me fez tomar a decisão de seguir meu caminho, graças a Deus. Não fiquei aprisionado na fala de um poderoso religioso — diz Kleber Lucas, que prefere não revelar o autor da ofensa.

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Apesar dos ataques de racismo e intolerância religiosa, o cantor também recebeu, nas redes sociais, muitas manifestações de apoio.

— Nem todo cristão faz intolerância. Independentemente do credo, nós podemos e devemos ter uma convivência pacífica. A religião se propõe, em primeiro lugar, a uma conexão com o sagrado, e em segundo, a uma conexão com seu próximo. Preciso respeitar a fé do meu irmão — diz Kleber.

Para manifestar apoio ao pastor e cantor, os organizadores do evento no terreiro agora se mobilizam para um ato em solidariedade a Kleber Lucas. Será na próxima segunda-feira, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Centro. Com informações Extra

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