Há uma antítese no coração que tem sido em grande medida ignorada – ou, no mínimo, subvalorizada – por aqueles que se lançam na vida cultural.

Muitos cristãos têm redescoberto a ideia do cristianismo como uma cosmovisão (uma “visão total da realidade”, com implicações não apenas para a igreja, mas para a sociedade) e, com isso, cresce também a percepção de que o povo de Deus se encontra envolvido numa guerra espiritual atroz. Desde a queda do primeiro casal, o Senhor pôs uma inimizade no seio da raça humana; esta inimizade é fundamentalmente entre Cristo (o descendente da mulher) e a serpente, mas ela se expressa na história como uma antítese entre os filhos de Deus e os filhos do maligno (Gn 3.15).

Essa percepção renovada da antítese tem animado os crentes ao engajamento cultural. Há um crescente interesse pelas discussões políticas e econômicas a partir de um ponto de vista distintamente bíblico; assim como aumenta a reflexão sobre educação cristã, sobre o lugar da arte e da beleza na criação divina, sobre a relação entre fé e ciência, e assim por diante. E, à medida que se multiplicam os livros e os fóruns sobre esses assuntos, vemos mais e mais crentes nas trincheiras, dispostos a empregarem suas armas espirituais para anular os sofismas e a altivez da incredulidade, levando todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2Co 10.4-5).

Guerra cultural e guerra no coração

É fascinante ver esse retorno dos crentes ao envolvimento cultural, e há muito o que agradecer a Deus por isso. Parece que o dualismo evangélico (a ideia de que a esfera pública é um “lugar onde cristãos não enxergam a possibilidade de servir a Deus”) está recuando e a igreja brasileira, redescobrindo o seu régio papel de “[combater], nesta vida, o pecado e o diabo” (Catecismo de Heidelberg, 32), não apenas no âmbito pessoal, familiar e eclesiástico, mas também na política, na economia, nas escolas, nas universidades e na ciência.

Acontece que, no afã de se alistarem para essa guerra cultural, muitos crentes têm ignorado a natureza radical da antítese. Sim, há uma inimizade posta entre os homens, entre a semente da mulher e a da serpente; mas esse conflito é apenas a expressão da antítese entre o Espírito de Deus e o espírito de apostasia que atua desde a queda no pecado. Essa guerra não é simplesmente uma oposição entre a Igreja de Cristo e os réprobos; antes, ela se manifesta também – e eu diria, sobretudo – na alma dos próprios eleitos de Deus: o Espírito contra a carne, a carne contra o Espírito (Gl 5.17). Há uma antítese no coração que tem sido em grande medida ignorada – ou, no mínimo, subvalorizada – por aqueles que se lançam na vida cultural.

Um campo de batalha (quase) esquecido

De que maneiras se expressa esse menosprezo pela antítese no coração entre aqueles que amam a ideia da cosmovisão cristã e se dispõem ao engajamento cultural?

Primeiro, subvalorizamos a antítese pela indistinção entre piedade direta e indireta. Ao redescobrirmos que a vida inteira se dá perante a face de Deus (coram Deo), e que devemos fazer tudo para a glória dele, por vezes somos tentados a equiparar aqueles atos de devoção cujo foco consciente e intencional está no próprio Criador (piedade direta) – como a oração, a leitura das Escrituras, o culto público etc. – com aqueles em que Deus é celebrado no desfrute de sua criação (piedade indireta) – como contemplar uma bela paisagem, apreciar uma obra de arte ou fazer uma boa refeição. Embora, de fato, Deus seja glorificado de ambas as formas, ele nos ensina a distingui-las e a empregar cada uma no tempo e do modo apropriados. Não devemos, por exemplo, substituir o culto público por um passeio pelo parque, assim como não podemos obter num lanche do McDonald’s o benefício que temos ao participar na Mesa do Senhor.

Segundo, a antítese no coração é menosprezada pelo consumo desmedido da cultura produzida pelos ímpios. A partir da ideia da “graça comum”, os pensadores da cosmovisão cristã têm acertadamente nos relembrado de que Deus é a fonte de toda boa dádiva, e que ele traz coisas boas ao mundo até mesmo pela mão de homens que o desprezam: desde energia elétrica, remédios e vacinas, viagens de avião, até a beleza de um Michelangelo ou a diversão de uma maratona de Breaking Bad. Por vezes, porém, isso tem servido de desculpa para o consumo de produtos culturais que promovem a imodéstia e a sensualidade, ou, mais sutilmente, para um tipo de apreciação estética que separa radicalmente verdade e beleza. Na verdade, para fazer jus ao verdadeiro princípio da antítese, as ideias de graça comum e mandato cultural deveriam mais estimular os cristãos a produzirem cultura do que justificar o (ab)uso do que é produzido por gente de outras cosmovisões.

Terceiro, a antítese no coração é ignorada pela confusão do ódio pelo pecado com a ira pecaminosa. Embora, de fato, haja uma oposição ferrenha e radical entre os cristãos e o mundo que os cerca (Jo 15.18), somos também lembrados de que nossa guerra não é contra pessoas (Ef 6.12). A ideia bíblica da antítese não pode servir de fundamento ao orgulho espiritual, justamente porque essa mesma antítese entre o Espírito e a carne está posta também no próprio coração dos crentes. Cristãos e não cristãos são diferentes em muitas coisas, mas a consciência do pecado remanescente deveria nos levar a um envolvimento sempre humilde na guerra cultural. “Tais fostes alguns de vós”, lembra-nos o apóstolo (1Co 6.11).

Não é sem razão que Herman Dooyeweerd, um dos grandes da cosmovisão cristã e do engajamento cultural, tomou como mote de sua filosofia o ensino de Salomão em Provérbios 4.23: “sobre tudo o que se deve guardar, guarda o coração, pois dele procedem as fontes da vida”. A antítese é fundamentalmente espiritual, e discerni-la e encará-la em nosso próprio coração é um item essencial na armadura do crente que pretende se alistar para a guerra cultural. Antes de sair para o combate nas linhas inimigas, é preciso ter certeza de que os portões de nossa própria vida estão bem fechados, escondidos e protegidos pelo Espírito de Deus.

Por Vinícius Silva Pimentel –  presbítero regente na Igreja Presbiteriana da Aliança (IPB) no Recife/PE, onde reside com sua esposa Laura. É, advogado, mestre em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco e membro fundador do Núcleo Althusius de Estudos em Cosmovisão Cristã.