Por Michael J. Kruger* – Coalizão pelo Evangelho no Brasil

Embora estas “notícias” não tenham uma base factual, possuem um grande, e desconfortável, número de adeptos

Houve muita conversa sobre “Fake News” esse ano. Algumas histórias, mesmo não tendo nenhuma base verídica, são contadas tantas vezes, e com tanta convicção, que uma grande quantidade de pessoas acaba acreditando nelas mesmo assim.

Algumas dessas notícias falsas até enganam figuras políticas legítimas que as repetem sem perceber que são falsas. E uma vez que uma figura política popular repete uma história, ela se torna ainda mais arraigada na psique da nação.

Enquanto algumas histórias falsas são inofensivas, outras são perigosas. A mais famosa talvez seja o incidente do “Pizza Gate” em 2016, no qual um homem falsamente acreditou que uma pizzaria era a sede de um esquema de tráfico sexual infantil e então disparou tiros contra o estabelecimento (felizmente ninguém se feriu).

Porém as “Fake News” não são um fenômeno recente. Existem algumas histórias falsas por aí sobre a pessoa de Jesus, as origens da igreja, e o desenvolvimento da Bíblia. Embora estas “notícias” sobre o cristianismo não tenham uma base factual, possuem um grande, e desconfortável, número de adeptos.

Aqui está uma amostra de cinco das principais histórias.

1. JESUS FOI CASADO COM MARIA MADALENA.

Talvez não exista uma teoria da conspiração sobre o Cristianismo primitivo mais sensacional e cativante do que a alegação que Jesus casou-se e teve filhos. Não é apenas a base para livros como O Código Da Vinci, mas parece surgir repetidamente nos principais meios de comunicação (veja um exemplo recente aqui).

O problema, é claro, é que essa crença é notoriamente falsa. Não existe nenhuma evidência de que Jesus foi casado.

(Para uma crítica completa desta ideia, veja meu artigo aqui)

2. A DIVINDADE DE JESUS NÃO FOI DECIDIDA ATÉ O CONCÍLIO DE NICEIA NO QUARTO SÉCULO.

Outra convicção muito difundida é que Jesus foi apenas um ser humano comum que foi exaltado a um estado divino pelo concílio de Niceia. Eles então suprimiram (e oprimiram) todos que insistiam no contrário.

Mais uma vez, entretanto, a evidência de uma crença na divindade de Jesus desde o princípio é esmagadora. Tão cedo quanto os anos 50 do primeiro século, Paulo aplica o credo monoteísta de Israel à pessoa de Jesus, declarando: “todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1Co 8.6). Existem boas evidências que Paulo está se baseando em tradições mais antigas neste texto, indicando que tal crença estava presente no começo do movimento Cristão.

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(Para saber mais sobre o reconhecimento da divindade de Jesus desde os tempos antigos, veja o livro de Richard Bauckman, Jesus and the God of Israel.)

3. CRISTÃOS NÃO POSSUÍAM UMA ‘BÍBLIA’ ATÉ O TEMPO DE CONSTANTINO

Também entrando no nosso top 5 está a alegação frequentemente repetida de que os cristãos primitivos, pelo menos pelos quatro primeiros séculos, não possuíam uma Bíblia. Eles dependiam meramente de tradições orais que sofriam constantes mudanças. E esse problema não foi resolvido até que Constantino comissionou a produção de uma Bíblia no quarto século (contendo apenas os livros que ele preferia).

Enquanto essa é mais uma teoria da conspiração intrigante, carece de fundamentação histórica. Os cristãos primitivos tinham uma “Bíblia” desde o primeiro dia — o que nós hoje chamamos de Antigo Testamento. Para eles, o Antigo Testamento era indiscutivelmente Palavra de Deus, e eles estavam profundamente comprometidos com sua autoridade. Além disso, desde o início os cristãos consideravam seus próprios livros como bíblicos, e a parte central do cânon do Novo Testamento é evidente a partir do começo ao meio do segundo século.

(Para uma breve discussão desse ponto, veja meu artigo aqui. Para mais detalhes, veja o volume por completo, The Question of Canon.)

4. OS EVANGELHOS ‘GNÓSTICOS’ COMO O DE TOMÉ ERAM TÃO POPULARES QUANTO OS DE MATEUS, MARCOS, LUCAS E JOÃO.

Desde a descoberta dos chamados Evangelhos Gnósticos em Nag Hammadi em 1945, tem sido comum a insistência que esses evangelhos “perdidos” já foram mais populares do que os que estão no cânon. É nos dito que durante os primeiros séculos os cristãos liam o Evangelho de Tomé com a mesma (ou até com maior) frequência do que os livros que estão em nossas Bíblias hoje.

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Toda essa narrativa tem um propósito claro por trás: Convencer as pessoas que todos os Evangelhos são praticamente iguais, e que nenhum Evangelho é mais válido que qualquer outro.

Mas essa narrativa rapidamente evapora quando olhamos para os dados históricos. Quando se trata de quase todas as linhas de evidência — frequência de citações, uso com Escritura, número de manuscritos – fica claro que esses Evangelhos apócrifos não eram muito populares no fim das contas. De fato, todos os indicadores históricos mostram que nossos quatro Evangelhos foram, de longe, os mais populares da igreja primitiva.

(Para mais informações sobre este ponto, veja meu artigo aqui ou confira o livro de Chuck Hill, Who Chose the Gospels?)

5. AS PALAVRAS DO NOVO TESTAMENTO FORAM RADICALMENTE ALTERADAS E CORROMPIDAS NOS PRIMEIROS SÉCULOS.

Completando nossas cinco principais notícias falsas está a afirmação de que o texto do Novo Testamento foi tão radicalmente corrompido, editado e alterado que não podemos realmente saber o que os autores originais escreveram. Tornada famosa pelo best-seller de Bart Ehrman, O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?, essa história tem sido repetida ad infinitum.

Mas não há evidências para esse nível de corrupção radical. É possível ver mudanças e erros dos escribas em nossos manuscritos do Novo Testamento? Claro, mas isso é verdade para todos os documentos da antiguidade. O Novo Testamento não é diferente.

E se há uma diferença, é que o Novo Testamento parece ainda mais bem preservado do que documentos comparáveis no mundo antigo. Depois de gerações de cuidadoso estudo e uma riqueza de manuscritos à nossa disposição, podemos ter grande confiança nas palavras do Novo Testamento.

(Para mais sobre esta questão, veja o último capítulo do meu livro A Heresia da Ortodoxia, ou a minha análise de O que Jesus Disse? O que Jesus não Disse?)

Esses cinco exemplos de “fake news” sobre o cristianismo primitivo se repetem com tanta frequência que as pessoas acreditam que devem ser verdade. Porém, assim como no mundo político, necessitamos examinar cuidadosamente os fatos antes de repetir qualquer afirmação.

*Original: Traduzido por Nathan Marinho para o site Coalizão pelo Evangelho no Brasil