Da redação JM

Armado com a voz, conhecimentos de sua fé e a experiência de vida de quem foi assaltante e traficante de drogas em bairros da Grande Vitória por 10 anos, Rogério de Souza Torres Barbosa, de 40 anos, hoje pratica missões religiosas em comunidades com vulnerabilidade social, presídios e até em favelas cariocas.

Morador do bairro São Pedro, em Vitória (ES), casado e pai de duas filhas, ele aponta que seu maior desafio é permitir que crianças e adolescentes tenham opção de escolha e “não optem pelo convidativo mundo do tráfico de drogas e da criminalidade”.

O primeiro contato de Rogério com a reportagem foi na última segunda-feira, no bairro Santo Antônio, Vitória. Após o assassinato de Henrique Salles Siqueira, 26 anos, ele foi até o local e, enquanto o corpo ainda estava no meio da rua, pregou para as pessoas, alertando sobre os perigos do mundo do crime.

Confira a entrevista do missionário:

Após um assassinato no bairro Santo Antônio, enquanto o corpo ainda não havia sido periciado pela polícia, o senhor fez uma pregação no local. Qual era seu objetivo naquele momento? Eu cresci naquela comunidade e aproveitei o respeito com o qual me tratam para dar um recado muito sério e urgente. Recado não, advertência: ‘saiam dessa vida porque vocês podem morrer cedo. Eu conheço isso e me diziam que eu não passaria dos 18 anos’. Completei 40 anos no último dia 10 porque lá atrás eu fiz escolhas diferentes. No caso do jovem assassinado, eu sabia que, infelizmente, ele foi vítima do envolvimento com o tráfico de drogas. Por experiência própria, eu sei o quanto o tráfico pode dar status e algum dinheiro, mas tudo isso é passageiro. Tudo acaba quando vem a prisão ou, pior ainda, quando vem morte. E não adianta nada morrer sem ter Jesus presente em nossa vida.

O senhor fala que tem experiência com mundo do tráfico. Como foi envolvimento com o crime? A minha infância foi muito dura, muito sofrida. Sou de família pobre e muito humilde. Já crescemos no berço do tráfico de drogas.

Como assim “no berço do tráfico”?

Tenho dois irmãos e duas irmãs. Aos 8 anos, nós tínhamos um tio que comandava o tráfico de drogas na região. Crescemos vendo a violência de perto: a forma como ele agia em casa e com as outras pessoas do bairro. Fomos influenciados por esse ambiente de violência. Meu pai e minha mãe nunca se envolveram com nada errado, mas a gente era criança e tinha curiosidade. A primeira droga que eu usei foi a cachaça. Depois passei a fumar cigarro, maconha até chegar a cocaína. Aos 13, larguei a escola, acho que estava na 7ª série, e comecei a trabalhar no tráfico de drogas.

Qual era a sua função?

Ainda adolescente, eu vendia drogas no bairro. Pegava minha bicicleta e andava com a droga aonde eu fosse. Como todo mundo me conhecia, me abordavam pela rua e eu vendia. Fui ganhando respeito e me tornei gerente da boca de fumo. Rapidamente, eu me tornei braço direito do chefe do tráfico.

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E como eram as atividades do gerente de uma boca de fumo?

No meu caso, eu mais vendia. Eu tomava conta da venda e do dinheiro. Não era tão fácil ter acesso a armas pesadas como hoje. Naquela época, às vezes, aparecia alguém vendendo um revólver calibre 32, calibre 22 ou uma garrucha. Arma pesada, de guerra, igual tem hoje, era raridade.

E qual foi o destino do seu tio?

Ele foi assassinado dentro um bar, quando eu ainda era adolescente. Outra morte que me marcou e revoltou profundamente foi a do meu primo. Ele era o meu parceirão. Um grupo rival foi matar um cara no bairro, não encontrou o alvo e matou o meu primo para não perder a viagem. Nosso grupo revidou o ataque e virou uma guerra

Além do tráfico, também se envolvia com outros tipos de crime?

O roubo, que era mais como um “hobby” que a gente tinha para manter a nossa vida e nossos vícios. A gente roubava para curtir a vida, comprar roupa e tênis de marca e aproveitar em baile funk. Mas não era sempre, não.

Nunca foram presos por isso?

Fui preso duas vezes. Aos 14 anos, fui detido por roubo em Vitória. Me acusaram de assaltar um homem em Jardim da Penha. Não conseguiram provar a autoria e fui liberado. Mesmo depois disso, continuei na vida do crime. A segunda foi aos 18 e lembro desse dia como se fosse hoje. Eu vendia cocaína e tinha passado duas noites virado (acordado) por causa do tráfico. No domingo, acordei à tarde e comecei a me arrumar para ir a uma festa. Lembro que minha mãe me disse por três vezes para não sair, mas a teimosia foi maior e eu saí mesmo assim. Depois da festa, fui para o morro e de lá saí em um carro da polícia.

E qual foi a acusação?

Como eu e meus amigos já éramos conhecidos da polícia, fomos abordados mas não acharam nada com a gente. Fomos pegos e depois fomos levados para a delegacia. Ficamos a noite e um dia todo na delegacia. Graças a Deus, conseguiram um advogado e fomos soltos. Não fui levado ao presídio. A experiência da segunda prisão foi muito dura, muito amarga para a minha vida. Mas a prisão possibilitou que eu estivesse vivo. Para muitos pode parecer loucura, mas hoje eu entendo que foi permissão do próprio Deus para eu me tornar o que sou hoje

Como aconteceu essa reviravolta?

Após a segunda prisão, em 1997, houve um atrito onde eu morava e precisei ir pra Governador Valadares, Minas Gerais, para casa de um amigo. Mas também me envolvi com o tráfico de drogas lá. Certo dia, minha mãe me ligou dizendo que tinha uma casa de recuperação para dependentes químicos na Serra. Voltei para o Estado para me tratar e me reaproximar da família. Na época, o pastor foi na minha casa me buscar. Eu não queria ficar naquele lugar. O pastor que cuidava do tratamento era extraficante e ex-assaltante. Ele falou: ‘você vai ficar aqui, sim. Se você for embora você vai morrer’. Discutimos, ele insistiu e eu acabei ficando. Eu tinha no meu coração o desejo de vingança ainda pela morte do meu primo, entende? Pensava até em ir para alguma favela do Rio de Janeiro, aprender com os traficantes de lá.

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E o plano de viajar para o Rio de Janeiro não deu certo?

Hoje eu vejo que o próprio Deus não permitiu. Lá na casa de recuperação eu comecei a ler a Bíblia e a ouvir hinos. Quando minha mãe ia me visitar, aquela situação torturava meu coração. Terminei o tratamento, deixei o mundo das drogas e comecei a buscar emprego. Trabalhei como vendedor de gás e me formei em um curso de vigilante.

Hoje o senhor é missionário da Igreja Assembleia de Deus, mas onde mora todos o chamam de pastor…

Pois é. Depois de sair da casa de recuperação, em 1998, frequentei a Igreja Presbiteriana e eles me ajudaram a me formar como missionário. Como faço pregações na Igreja Assembleia em Santo Antônio ou nos lugares onde sou convidado, todos me tratam como pastor. Eu atendo, mas hoje sou missionário. Nosso objetivo é apresentar o evangelho às pessoas que estavam como eu: viciados, traficante de drogas. Enfim, todas as pessoas que desejam nos ouvir. Quando for o momento de Deus, quero iniciar o presbitério e depois, me formar pastor

Na prática, como funciona o seu trabalho como missionário? É um trabalho difícil porque meu único poder é o meu testemunho e a minha fé em Deus. Eu faço abordagens nas ruas das comunidades e convido eles para irem à igreja. Alguns vão e pedem ajuda para sair do mundo do crime, pedem para serem internados. Também vou em bocas de fumo, mas sempre peço permissão para entrar e não gerar conflito. Quando sou autorizado, falo sobre a minha vida e converso sobre a importância de Deus. Muitas mães também me ligam pedindo ajuda para os filhos. Levo muita gente para as casas de recuperação. Quando uma mãe me procura em desespero, chego junto e falo para o filho: ‘você quer mesmo sair dessa vida? Está preparado?’. Uns vão e se recuperam. Outros vão e não ficam nem um dia. Faço isso aqui no Estado e fora daqui, como nas favelas do Rio de Janeiro.

Quantos o senhor já resgatou?

Eu não salvo ninguém, levo a palavra às pessoas. Eu só tento dar a mão, quem salva é Deus. Posso dizer que ajudei muitos. Mas, com tristeza, digo que outros não quiseram e morreram.

Com informações Gazeta