Da redação JM

Igreja é acusada de trabalho escravo e cárcere privado (foto: Reprodução)

A Igreja Adventista Remanescente de Laodiceia, seita religiosa acusada de manter jovens em cárcere privado e explorar mão de obra em regime escravo (inclusive de menores de idade), teve os bens bloqueados para movimentação pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) — um total de R$ 5,4 milhões —. As contas da líder da seita, Ana Vindoura, e de membros próximos a ela, como o pastor Luciclei Rosa da Silva, Márcia Cristina Cardoso, Marcia Morais de Rezende e Lúcio de Faria Silva Alves estão bloqueadas, assim como os ativos financeiros das empresas Folha de Palmeiras Comércio e Indústria de Alimento Ltda.

O conglomerado faz o sustento da congregação, com a impressão de livros, panfletos e outros materiais de cunho religioso, assim como a produção de pães e bolos vendidos pelos trabalhadores. Na decisão da juíza Tamara Gil Kemp, da Vara do Trabalho do Gama, também foi aceito o pedido do MPT por decretar indisponibilidade de todos os veículos automotores registrados, bem como do maquinário das empresas.
Os mais de cinco milhões serão destinados ao pagamento dos trabalhadores explorados. Segundo as procuradoras que assinam a ação cautelar, Carolina Vieira Mercante e Dinamar Cely Hoffmann, a restrição é fundamental para garantir a reparação dos danos causados.

No dia 7 de março, uma operação entre a Polícia Civil do Distrito Federal, o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Trabalho, auditores fiscais do trabalho do Ministério da Economia, o Conselho Tutelar do Gama e a Secretaria de Justiça e Cidadania do DF interditaram os alojamentos e outras áreas da igreja e encontraram 95 trabalhadores em condição degradante de trabalho e vida.

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Alguns deles estavam dormindo em ônibus ou caminhões mal adaptados e sujos. No lugar onde os pães eram feitos, foram encontradas irregularidades elétricas, que ofereciam risco de incêndio.

Trabalho escravo

A história da congregação começou há 10 anos, em Corumbá de Goiás. A princípio, Ana Dias reunia um pequeno grupo para estudos bíblicos. Com mais adeptos, eles passaram a fazer caravanas itinerantes pregando pelo Brasil. Por seis meses, estiveram em Cuiabá (MT), vendendo e distribuindo conteúdo religioso. Nesse período, em 2014, a obreira foi acusada de trabalho escravo e infantil pelo Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso.

O juiz José Roberto Gomes, da 4ª Vara do Trabalho de Cuiabá, condenou os réus ao pagamento de R$ 100 mil em indenizações. A defesa recorreu. O processo se encontra junto no Tribunal Superior do Trabalho (TST), sob sigilo.

Demônio no corpo

Em janeiro deste ano, policiais da 20ª Delegacia de Polícia (DP), localizada no Gama, resgataram uma jovem de 18 anos que era mantida em cárcere privado na casa da líder da Igreja. A moça era obrigada a fazer as tarefas domésticas da casa, sem direito a comunicação, acusada de estar com o demônio no corpo e forçada a estudar a Bíblia.

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Ana Vindoura chegou a ser presa, mas passou apenas uma noite no cárcere. O caso não foi isolado. Outras garotas teriam passado pela mesma situação, sempre acusadas de estarem endemoniadas. O portal Correio conversou com uma das vítimas e com o pai dela, que fez o resgate da garota de 19 anos. Ele relatou que os membros da Igreja restringiam o contato dos dois.

A profeta também foi ouvida e declarou que o cárcere era uma forma de curar as jovens do demônio, que tomava o corpo delas. “Quando Deus resolveu salvar o homem, teve que enfrentar o pior inimigo, que são os demônios e eles existem. Eles manipulam a cabeça das pessoas para fazer o que querem”, disse à época.