Da redação

Centenas de cristãos foram mortos na Nigéria por milícia islâmica este ano. Foto: Reprodução

Enquanto se considera o Estado Islâmico quase derrotado no Iraque e na Síria, o cenário é bem diferente na Nigéria.

De acordo com um bispo nigeriano que falou perante as Nações Unidas, o grupo terrorista Boko Haram está evoluindo para Estado Islâmico na África ocidental e parece ser dirigido remotamente pelos próprios terroristas jihadistas.

O arcebispo Ignatius A. Kaigama, da arquidiocese de Jos, na Nigéria, falou no dia 1 de março na conferência “International Religious Freedom: A New Era for Advocacy in Response to a New Age of Challenges and Threats”, organizada pela Missão Observadora Permanente da Santa Sé ante a ONU, juntamente com a ONG Comitê sobre Liberdade de Religião ou Crença.

O arcebispo dividiu o palanque com Samuel Brownback, embaixador geral dos EUA para a liberdade religiosa internacional; Thomas Farr, Presidente do Instituto de Liberdade Religiosa, e Hajnalka Juhász, Comissário Ministerial e Membro da Assembleia Nacional da Hungria.

O arcebispo, ex-presidente da Conferência dos Bispos da Nigéria, iniciou suas observações com uma anedota pessoal que revela como o Boko Haram ainda é muito ativo.

“Durante minha viagem de Abuja para Paris, antes de vir aqui para Nova York, encontrei brevemente um sacerdote da diocese de Maiduguri, Nigéria, que me contou que estava voltando do funeral de seu pai, que havia sido morto recentemente pelo Boko Haram”, disse o arcebispo Kaigama.

Ele explicou que o Boko Haram foi fundado em 2002 e se tornou um grupo militante após o assassinato extrajudicial de seu líder, Yusuf Mohammed, em 2009.

“O desejo do Boko Haram de reintroduzir o domínio histórico islâmico, especialmente no norte da Nigéria, mas também além, levou-os a cometer todo tipo de atrocidade. No início, era exclusivamente contra os cristãos, mas agora também é contra os muçulmanos que não compartilham sua ideologia”, disse ele.

O grupo terrorista já matou mais de 28 mil pessoas e causou mais de 3,8 milhões de deslocados internos, disse o arcebispo. Eles são conhecidos por bombardear locais de culto enquanto as pessoas estão em oração. Um ataque de 11 de março de 2012 à Igreja St. Finbar, na Arquidiocese de Jos, matou 14 pessoas, por exemplo.

O arcebispo Kaigama disse que a escalada do fanatismo religioso e do ódio na Nigéria são as consequências das atividades do Boko Haram. Quando a religião entra em discussão, as pessoas sabem que dizer “uma coisa errada” pode levar a uma grande disputa e até à violência.

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Mais recentemente, surgiu um problema que também envolve a violência entre muçulmanos e cristãos na Nigéria: a atual disputa entre pastores e fazendeiros fulas (um grupo étnico que compreende várias populações espalhadas pela África Ocidental, mas também na África Central e no Norte de África sudanesa). Segundo explicou o arcebispo, a razão para a violência tem mais a ver com economia e briga por terra do que com a perseguição religiosa.

“O impacto da mudança climática na região do Sahel, lar de muitos nômades, tornou muito difícil alimentar o gado. A seca e o desmatamento conduziram a conflitos com os agricultores”, disse o arcebispo. “Eventualmente, tais conflitos assumem uma máscara religiosa, porque os pastores são geralmente muçulmanos, e os agricultores são em sua maioria cristãos”.

Como um exemplo da violência, ele disse que em abril passado, dois padres e 17 leigos foram mortos durante a missa em Benue. “A missa tinha acabado de começar às 5h30 da manhã quando foram mortos a sangue frio”, contou o arcebispo. “Os pistoleiros então começaram a invadir os celeiros dos que estavam nas proximidades da igreja e depois incendiaram 60 casas antes de fugir. Eles nunca foram presos. Eles são apenas referidos a nós como ‘pistoleiros desconhecidos’”.

Em uma entrevista a Ajuda à Igreja que Sofre, o arcebispo Kaigama enfatizou que tais ataques não são fundamentalmente motivados pela religião. “Se dois grupos estão envolvidos e um é cristão e o outro é muçulmano, a mídia e até mesmo os espectadores dirão que é uma coisa cristã-muçulmana. Eu não nego que existem motivos religiosos. Mas nem tudo tem a ver com religião; há também a realidade econômica que temos de considerar”, disse.

O arcebispo considera que não ajuda quando a mídia noticia tais explosões de violência como motivadas religiosamente.

Em sua apresentação na ONU, o arcebispo disse que no sul da Nigéria as relações entre muçulmanos e cristãos são bastante normais. Cristãos e muçulmanos convivem pacificamente, casam e celebram as festas juntos. Pode-se converter do islamismo ao cristianismo e vice-versa, sem ameaças à vida de alguém.

As coisas são diferentes no norte. No estado de Gombe, por exemplo, existe uma minoria cristã significativa que está crescendo tanto em população quanto influência. Mas a maioria muçulmana está adotando medidas destinadas a controlar o crescimento da minoria cristã, além de impedi-la de ocupar posições-chave na política e no funcionalismo público. “Em estados como Gombe e Bauchi, os cristãos são tolerados, mas basta uma falsa acusação para que eles sejam violentamente atacados”, disse.

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O arcebispo listou vários exemplos de maus-tratos aos cristãos no norte, incluindo:

  • Em alguns estados de maioria muçulmana, o conhecimento religioso islâmico está incluído no currículo das escolas primárias e secundárias, enquanto o ensino do conhecimento religioso cristão é proibido.
  • Em muitas sociedades de maioria muçulmana no norte da Nigéria, os cristãos não têm permissão para construir igrejas, enquanto os muçulmanos podem construir mesquitas em qualquer lugar.
  • Cristãos nascidos em estados de maioria muçulmana reclamam de que emprego ou promoção no serviço público são negados por causa de sua fé.

A Igreja Católica está tentando ajudar a resolver algumas questões de liberdade religiosa. O arcebispo Kaigama fundou o Centro de Reconciliação e Diálogo de Paz, em Jos, e espera que o governo adapte seu modelo. É um “espaço seguro, aberto a todos, não importa sua religião e etnia e idade. Você chega lá e sabe que está seguro e que todos são iguais”.

“No diálogo inter-religioso, precisamos conversar com sinceridade”, prossegue o arcebispo. “Não é esse tipo de reunião entre líderes cristãos e líderes muçulmanos, onde apenas trocamos amabilidades e somos educados um com o outro e depois voltamos e as coisas não mudam. Não, precisamos de discussões honestas e sinceras que tomarão ações específicas”.

Na ONU, ele também pediu ao recém-reeleito presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, que faça mais para “ajudar a desintoxicar a mente de jovens envenenados por preconceitos religiosos e doutrinação, para que eles possam tratar os outros como seres humanos dignos de respeito”.

“Não há segurança social para os jovens. Você encontra aqueles que se formaram na universidade em todo lugar. Eles estão ociosos e, portanto, muito suscetíveis à manipulação por fanáticos políticos, por fanáticos religiosos e extremistas étnicos”, disse o arcebispo. “Esta é a esperança da Nigéria, o futuro da Nigéria. Se ele puder dar uma atenção muito séria às necessidades dos jovens… e torná-los relevantes, dar-lhes algo para fazer como contribuição para a nação, acho que ajudaria a desintoxicar e também remover aquele veneno negativo [extremismo] político, religioso ou étnico injetado neles”.

(Com Aleteia)