Da redação JM

O diácono Shirton Leone reza no Monte do Campo Belo, no ponto em que a Polícia Civil metralhou no último sábado ao sobrevoar a região de helicóptero. Aeronave tinha a presença do governador Wilson Witzel. Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Foram cerca de 10 tiros em apenas um segundo. Um sobrevoo do governador Wilson Witzel sobre Angra dos Reis no último sábado por pouco não acabara em tragédia. Um vídeo publicado nas redes sociais mostra o helicóptero no entorno da região conhecida como Areal, controlada pela criminalidade. A aeronave se desloca em direção ao Monte do Campo Belo, ponto de peregrinação de cristãos. Moradores afirmam que o local é conhecido por todos como uma rota de oração. Nas imagens um atirador dispara uma rajada com a metralhadora em direção a uma lona azul instalada na trilha do morro.

O diácono Shirton Leone, da igreja Assembléia de Deus, considera um livramento que mesmo em um sábado o local estava vazio. O hábito de subir morros sem qualquer habitação para caminhar e dialogar com Deus é normal entre os mais religiosos.

Visto como paraíso natural na região da Costa Verde no Rio de Janeiro, a cidade de Angra dos Reis se transformou em refúgio do tráfico nos últimos cinco anos.

— Sempre há alguém ajoelhado atrás da lona, de joelhos, orando. Faz parte da nossa peregrinação. O prefeito sabe disso, é católico. Foi um livramento não ter acabado em tragédia aquela ação — comenta Leone.

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Naturalmente aos sábados há um fluxo constante de cerca de 30 pessoas que sobem a encosta para rezar, segundo o diácono. Alguns, inclusive, fazem campanhas de oração e passam a noite acampando.

Com o município dominado por facções criminosas, os confrontos têm tomado o noticiário e espantado turistas. No último sábado, em ação da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil, o governador Wilson Witzel sobrevoou a região ao lado do prefeito Fernando Jordão e o secretário da Polícia Civil, Marcus vinícius, a título de “dar fim a bandidagem”.

— Nós, da congregação, acreditamos até que isso tenha sido um ato do diabo. Dessa forma ele espanta quem tem fé de subir o monte para dialogar com Deus — explica o diácono.

Na lona de pouco mais de 1 metrô de extensão, as marcas de bala são fáceis de identificar. A perfuração chegou a queimar o tecido em alguns pontos devido a velocidade que os disparos atingem o solo. As cápsulas, porém, já haviam sido recolhidas. O local de peregrinação e constante acampamento de religiosos agora é sinônimo de perigo e gera medo.

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— Como vamos fazer nossa campanha de oração ali? Não temos mais segurança – corrobora com a versão do diácono outro morador sem se identificar.

Shirton naquele dia decidiu fazer a caminhada para orar e refletir em outro monte. Por obra do acaso, ou do livramento de Deus como o próprio afirma, levou consigo a missionária Rosângela. Ela costuma fazer o trajeto no Monte do Campo Belo todos os sábados. Em um típico dia, os disparos que não parecem ter tido qualquer propósito poderiam ter causado a morte de um inocente. Procurados, o governador e o prefeito não comentaram o tema.

Não muito distante, a cerca de 1,5 km do ponto de oração é visível uma tenda supostamente utilizada pelo tráfico. Embaixo de uma lona preta, dois homens se escondiam na estrutura instalada na base de uma torre de alta tensão. Segundo moradores, o ponto é usado como tocaia de observação para avisar aos criminosos da chegada de policiais pela BR-101. Nas filmagens do sobrevôo do governador a câmera deixa de gravar o solo quando o helicóptero vai em direção da tenda. A visibilidade de cima, portanto, não é garantida.