Bispa Sonia alerta sobre evangélicas vítimas de violência doméstica: “chegam ao altar com olho roxo”

"Igrejas que dizem para não denunciar estão assinando o atestado de óbito da vítima"

Da redação JM

“Igrejas que dizem para não denunciar estão assinando o atestado de óbito da vítima”

As igrejas desenvolvem ações voltadas para ajudar famílias enfrentarem os mais diversos problemas na sociedade e a luta contra a violência doméstica contra as mulheres é um exemplo disso. No caso abaixo, Sonia Hernandes, líder evangélica do país, fala sobre seu trabalho a frente de um grupo que ajuda essas vítimas.

Sonia é uma das fundadoras da igreja evangélica Renascer em Cristo e atende por mês cerca de 100 mulheres pedindo ajuda para sair de uma situação de violência doméstica. “Elas nos procuram no altar com os olhos roxos, hematomas nos braços e nas pernas e relatando ameaças de morte por parte dos maridos”, diz a Bispa.

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Ela informa ter criado um grupo de advogados voluntários para orientar essas mulheres.

A evangélica também pretende implementar em suas igrejas o projeto Tempo de Despertar, aplicado na ressocialização de homens agressores. O programa, que hoje funciona em fóruns de Justiça de São Paulo, promove tratamento psicológico e grupos de conversa para homens, na tentativa de diminuir a reincidência das agressões.

O Tempo de Despertar deve ser expandido para outras duas igrejas evangélicas e em uma congregação católica.

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Sem saber como fazer uma denúncia, com medo do marido ou de serem, injustamente, culpadas por destruir a família ao fazer uma queixa, muitas vítimas encontram na igreja a tábua de salvação, e nos líderes religiosos aqueles que vão lhes dizer o que devem fazer.

Para Sonia, muitas denominações falham nesse trabalho. “Sei que há instituições religiosas, e não só evangélicas, que fazem a mulher aceitar se calar. Isso arrebenta a vida delas”, diz.

“Igrejas que dizem para não denunciar estão assinando o atestado de óbito da vítima”.

A negligência em casos de violência é tão recorrente, que lideranças religiosas e associações têm instruído, de maneira prática, seus integrantes a ouvir e ajudar as vítimas. O Conic (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil), que reúne as igrejas Católica, Luterana, Anglicana, Batista, Presbiteriana e Ortodoxa, divulgou um comunicado no dia 22 de junho direcionado a pastores, padres e reverendos: “Parem de aconselhar a mulher que é agredida fisicamente pelo marido a orar e esperar em Deus; mandem ela ir até uma delegacia denunciar o covarde. Do contrário, vocês são cúmplices do crime”.

Atitudes erradas

“Pastora me dizia que eu não deveria me separar mesmo que ele me batesse”

Foi com uma referência à Bíblia que a pastora de uma igreja evangélica respondeu ao pedido de ajuda da dona de casa M. D., 27 anos, quando ela contou que era espancada pelo marido.

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“Os humilhados serão exaltados”, disse a religiosa, que ainda orientou M. a jejuar, passar sete madrugadas orando e “aguentar as humilhações” do agressor. “Ele me dava tapas no rosto, me chamava de vagabunda, já me empurrou da cama e disse que ia passar a faca em mim. Pedi ajuda para essa líder e fiz o que ela disse, mas não resolvia. Estava morrendo por dentro”, conta M.

Ela ouvia que não deveria se separar e que tinha que ser forte e aguentar as explosões de raiva do marido, mesmo que ele a agredisse fisicamente. “Um dia, ele me segurou pelo pescoço dizendo que ia me matar. Em seguida, contei para a minha irmã, que chamou a polícia. Fui então levada a um abrigo para mulheres vítimas de violência doméstica”, diz M., que hoje que mora em Rondônia, em uma casa de acolhimento para mulheres agredida. “Depois que me separei, ninguém da igreja me procurou para saber como eu estava, pois eles são contra o divórcio.”

(Com UOL)