Da redação

Será que o evangelho pode, de alguma maneira, superar a existência e a importância da igreja?  Foto: Reprodução

Por Rafael Rossi

O termo desigrejados se refere a um neologismo baseado na decepção que algumas pessoas tiveram com qualquer instituição religiosa. O que percebemos hoje é, por conta deste fenômeno, uma busca por respaldo em argumentos teológicos e históricos para justificar a não necessidade da igreja para o exercício da fé. Na história recente, tornou-se mais comum a classe de religiosos evangélicos sem vínculo institucional. Cristãos nominais, algo incomum até então na tradição protestante, apresentam suas justificativas para tal decisão. Essas pessoas não se consideram desviadas da fé. Declaram que estão, na verdade, decepcionadas com a instituição, mas não com Cristo. Querem apenas Jesus e alegam que não precisam da igreja para manutenção da vida cristã.

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Dentro da Bíblia, fica claro que o papel da igreja é marcadamente importante e fundamental. Não significa dizer que a igreja é quem salva, porque em termos teológicos a salvação se dá por meio da morte expiatória de Cristo “para todo aquele que nele crê” (João 3:16). O Espírito Santo é quem age nos seres humanos para convencer da justiça, do pecado e do juízo. A aceitação do sacrifício substitutivo que nos foi dado como fruto da graça de Deus resume todo o plano da salvação (Romanos 5:5).

Por que igrejas?

Excluir a igreja desse processo é arriscado e insustentável, porque ela tem um papel insubstituível dentro da jornada cristã rumo a salvação. A igreja foi fundada e estabelecida por Jesus e isso é a base para todos argumentos que justificam a sua necessidade. No centro do reino de Deus, está a igreja. Ela é um sinal e uma ferramenta para a prática da espiritualidade. Representa o reino de Deus inserido na vida do mundo. A igreja oferece uma oportunidade para vivermos em comunidade, que além da pregação, busca viver em santidade e reconciliação, embora formada por seres pecadores. Existe por causa de Jesus e para Ele. É seu corpo, sua família e sua identidade.

A igreja também é uma aliança de fé, um só corpo com muitos membros que são identificados como discípulos de Jesus. O discipulado significa andar junto, no mesmo caminho, e isso se consolida de maneira específica por meio da igreja. Ela é um grupo único porque é uma comunidade do Espírito Santo. Uma reunião em que Deus opera (Filipenses 1:1-11). O centro da igreja é Cristo e, por isso, os seus membros se reúnem debaixo de um mesmo sentimento para aprender e adorar a Deus.

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A prática do amor faz com que os membros se comprometam uns com os outros. A igreja me recorda que existem mais pessoas na caminhada da fé e a ajuda mútua se faz necessária. Na igreja, os membros aprendem a viver juntos e em harmonia, dedicando-se ao bem-estar mútuo (Atos 2:42), como filhos da mesma família (Atos 11:29), partes do mesmo corpo (Romanos 12:4,5) e cidadãos da mesma pátria (Filipenses 3:20). Na igreja, os membros ministram uns aos outros com o exercício dos seus dons e que, por outro lado, recebem também de acordo com as suas necessidades. A igreja confronta o egoísmo quando desafia a sacrificar os interesses pessoais em prol de alguém.

Igreja e missão

Um outro aspecto é a singularidade da missão. A igreja é uma comunidade chamada por Deus para convidar outras pessoas a conhecer mais a Deus, Seu amor e Seus ensinos. A missão da igreja é anunciar a vinda do reino a todos os povos da Terra. Sem uma estrutura organizada com objetivos comuns, sem a capacitação para o desenvolvimento dos dons e a criação estratégica das oportunidades para exercê-los, as possibilidades de cumprir o ideal de pregação ao mundo todo fica mais enfraquecido.

O evangelismo é central na vida da igreja, não apenas pela salvação que alcança pessoas por meio dele. É o melhor método para manter a vitalidade da igreja. Nesse sentido, não podemos criar uma distinção entre igreja e missão. Essa divisão tira a missão do centro da igreja e conduz a uma visão institucionalizada e separada. Missão não é apenas o resgate de indivíduos, mas, também, discipular rumo à maturidade cristã e plantar novas igrejas como cumprimento da responsabilidade em alcançar o todo o mundo.

A igreja não é um instrumento operacional do governo de Deus no mundo, mas o testemunho prático do seu domínio. Deus deixou a igreja na Terra para ser sua testemunha e sua representante. Igreja é estar presente como uma testemunha do amor e redenção em meio às catástrofes e tragédias, que são consequências de um mundo tomado pelo pecado. A mobilização e a força conquistada pela união é que dão condições para agir de maneira mais intensa e relevante.

Viver no mundo, mas não pertencer a ele é tarefa permanente da igreja na vida dos seus membros. Não é possível ser cristão e não ser missionário. Quando nos encontramos com Deus, conhecemos um Deus evangelista em sua essência. Não podemos ignorar o sofrimento alheio e nem nos contentar apenas em nutrir o sentimento de solidariedade. Precisamos ir além, compartilhar as boas novas que podem ser a única chance das pessoas em terem uma vida melhor aqui na Terra e a perspectiva da eternidade. Dentro da igreja nos organizamos para receber a capacitação e a motivação para a missão.

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Há, também, que se considerar que a igreja é um local de pessoas imperfeitas. Esperar perfeição e um local isento de qualquer frustração é negar a natureza humana que acompanha cada indivíduo. Existem problemas decorrentes do egoísmo, dos distintos pontos de vista e como se reage diante das mais diversas situações. Há muita gente que foi ferida e, por isso, desacredita da instituição igreja. Uma coisa são as pessoas e outra são os objetivos de Deus em fundar a igreja. O exercício do perdão, a coragem da reconciliação e a necessidade constante de restauração fortalecem o fruto do Espírito.

Ellen White, no livro Mensagens Escolhidas, volume 2, pág.159-160 adverte: “A unidade é a força da igreja. Satanás o sabe e emprega toda a sua força para introduzir dissensão. Ele deseja ver falta de harmonia entre os membros da igreja de Deus. Deve ser dada maior atenção à questão da união”.

Outro importante aspecto da igreja é o exercício da mordomia cristã porque constrói a fidelidade das pessoas. O dízimo é fundamental para o cumprimento da missão para o mundo. A forma de pregação do evangelho e a manutenção dos que vivem para pregar o evangelho são propósitos estabelecidos por Deus. Ficar fora da igreja é perder a parte de uma bênção especial que Deus tem para a sua vida. Ficar fora da igreja é substituir o pastoreio pelo autocuidado. Ficar fora da igreja é se isolar de outros cristãos que estão na mesma caminhada. Ficar fora da igreja é não aproveitar as oportunidades de viver o cristianismo prático. Ficar fora da igreja é ficar fora do plano de Deus para a manutenção da fé. A igreja e o Evangelho são totalmente compatíveis e complementares; é preciso ter tanto um quanto o outro.

Sobre o autor: Rafael Rossi é formado em Teologia, é pós-graduado em Aconselhamento e mestre em Teologia Pastoral. Atualmente é o diretor de Comunicação da Igreja Adventista do Sétimo Dia para oito países sul-americanos. @rafaelrossi7

Artigo publicado originalmente em Noticias Adventistas