Artigos

Como a grande mídia quer criminalizar quem não acredita em suas notícias

Entidade jornalística que defende a categoria culpa leitores e Bolsonaro por descrédito generalizado da imprensa brasileira. Jornalistas são insultados e humilhados nas ruas

Parece uma teoria conspiratória tirada de um episódio de Twilight Zone (Além da Imaginação) ou uma tirada irônica de algum cronista pouco criativo. De fato, nem como piada isso teria alguma graça, pelo caráter inverossímil. Mas é justamente a verossimilhança que está caindo em desuso. Com o estereótipo do negacionista, jornais pretendem negar a existência da opinião, substituindo-a pela crença cega na palavra dos bilionários que guiam a mídia.

Na última semana, a Fenaj (Federação Nacional de Jornalistas) publicou um documento em que incluiu a prática da descredibilização da imprensa na lista de “violência contra jornalistas”. A entidade, que nos últimos anos vem fazendo uma campanha pela união dos jornalistas “contra o fascismo”, acredita que a culpa pela perda de credibilidade enfrentada pelos jornais há décadas é de Bolsonaro. 

Não se trata da denúncia de uma conspiração movida por bilionários para descredibilizar pequenos e humildes pasquins locais, que lutam bravamente sem recursos para dizer a verdade contra esses bilionários. Estamos falando do exato oposto: a denúncia vem dos grandes bilionários controladores dos maiores e mais poderosos jornais do país, que por meio de seu sensacionalismo fez tiranetes regionais restringirem direitos e liberdades de trabalho, empobrecendo grande parcela da população. É esperado que essa população passe a duvidar dos grandes jornais. Mas, segundo esses mesmos jornais, tudo faz parte de uma conspiração desse poderoso povo contra o pobre establishment.

Enquanto Bolsonaro, seus apoiadores e aliados políticos, têm sido, desde as eleições, chamados de fascistas, nazistas, homofóbicos e todo tipo de rótulo odioso pelos jornais por meio de suas insinuações cotidianas, os grandes grupos de comunicação lançam sobre esses mesmos alvos a culpa pela merecida surra de cidadania e liberdade de expressão que recebem da população em geral nas ruas. Segundo jornais, a imprensa tem o direito de ameaçar criminalizar cidadãos, usuários das redes sociais, leitores em geral. Mas a sociedade que não acredita na mídia parece fazer parte de uma “ação sistemática” (palavra usada pela Fenaj) de descredibilização dos pobres jornais.

Tendo o auge neste ano de 2020, com o sensacionalismo em torno da pandemia, os grandes grupos de comunicação vêm perdendo leitores a olhos vistos. Desde a queda nas tiragens, em anunciantes, até o descrédito popular motivado pelas ondas de protesto de 2013, os jornais viram sua credibilidade afundar a partir de uma maior consciência política expressa nas redes sociais. Nos últimos anos, com a ajuda de parcerias com as gigantes tecnológicas das redes, vêm fomentando a censura e o bloqueio de usuários que discordam das visões dos grandes conglomerados de mídia.

Durante a pandemia, foi finalmente criado um estigma para rotular o leitor infiel, isto é, aquele que não acredita em tudo o que lê nos jornais. O negacionista, para eles, é uma ameaça à democracia. Há alguns meses, os jornais se uniram para publicar o “alerta” da ONG britânica Artigo 19, que incluiu na lista de “agressões à imprensa” as gargalhadas de Bolsonaro diante de perguntas de jornalistas. Agora, a Fenaj incrementou a lista e inseriu no rol de violências, agressões e mortes de jornalistas, a terrível e desumana falta de fé no conteúdo das notícias publicadas pelos grandes e poderosos grupos de comunicação.

A Fenaj parece temer a instalação de um regime mundial de terror, em que todo o poder emana do povo e não de bilionários que financiam suas ONGs fornecedoras de pauta. A entidade se queixa de que jornalistas já não podem andar na rua sem serem xingados e humilhados, após já quase um ano de sensacionalismo e pessimismo midiático na cobertura da pandemia. O jornalismo tradicional dos grandes grupos vendeu-se, em 2020, ao grande esquema de poder que retirou direitos, restringiu liberdades, a partir de um terrorismo midiático que instigou o oportunismo político regional.

Ao contrário do que imaginam os profissionais das redações da Folha, Estadão, O Globo etc, o povo sabe identificar quando o jornalismo quer manipulá-lo. A sociedade se enfurece com as capas de caixões empilhados, enquanto seus prefeitos e governadores fecham comércios e impedem o sustento da população. A relação entre o jornalismo sensacionalista e as ações ditatoriais de tiranetes locais não é difícil de fazer. Por isso, não podem sair às ruas. Mas a culpa, segundo a Fenaj, é do leitor.

Como os leitores não andam se comportando bem, cabe aos jornais lançar sobre eles as mais odiosas maldições sob a forma de rotulações difamatórias como aviso a todos sobre as consequências terríveis da descrença, ao menos enquanto não convencem Alexandre de Morais a instaurar um “inquérito dos negacionistas” para perseguir leitores indisciplinados.

— Cristian Derosa é mestre em jornalismo pela UFSC e autor dos livros “A transformação social: como a mídia de massa se tornou uma máquina de propaganda” e “Fake News: quando os jornais fingem fazer jornalismo”.